Parte dois - Sobre Muriel

Em meio a todos os complexos do caos da sociedade setentista vivia uma jovem que se deixava levar por toda a onda do movimento de libertação ético-religioso-moral .
De tudo experimentou! Do álcool às desilusões das paixões eternas de uma noite apenas. Assim foi a sua entrada na mais longa e complexa fase da vida em sua totalidade. Sua personalidade é o mais próximo do caos que alguém nunca imaginara. Devido à enorme capacidade de absorção de tudo no qual estava inserida, a jovem chegou à universidade, ainda levada pelo movimento das ondas do 'deixa rolar' e do 'abaixo ao imperialismo' e resolveu estudar psicologia e sociedade. Sem esforço aquela jovem trilhou o mais brilhante dos caminhos intelectuais do curso. Tudo o que os mestres e tutores falavam, a mesma identificava com muita facilidade já que toda a sua vida fora cercada de complexos terríveis e desconexos, desde sua infância, cujo as cicatrizes eram vistas em sua alma sem esforço algum à situação de miséria e pobreza na qual cresceu. Era fácil entender os complexos conceitos da escola moderna da psicologia. Era natural assimilar o avanço da história das sociedades, movimentos filosóficos, políticos, enfim, todo o vento que soprava para o lado social e humano era como o próprio ar que a jovem respirava.
Todos as características naturais do ser pairavam em sua mente como um oceano turbulento, sem sossego, com oscilações enormes mas completamente ligadas, umas as outras. Não se sabia como, mas a jovem simplesmente conseguia entender, assim como alguns conseguem entender a música ou a matemática, mesmo sem grandes esforços, assim a jovem desvendava a humanidade.
Durante os oito anos de curso universitário a jovem obteve destaque e la mesmo continuou as suas pesquisas ao ponto de conseguir formular teorias impactantes sobre o homem e sua natureza. Um trabalho brilhante igualado somente à obra de Freud, porém, em metade do tempo.
Assim a jovem alcança a idade adulta. Suas pesquisas são publicadas nos periódicos mais conceituados do mundo, traduzidos e veiculados de forma que toda a sociedade científica pudesse ter acesso à sua obra e avançassem juntos rumo a leitura do homem.
Poucos sabiam a motivação daquela jovem senhorita. Alguns especulavam sobre sua vida solitária porque julgavam que homem algum aguentaria a humilhação de ser a parte frágil da relação. Outros diziam que ela conhecia tão bem os sentimentos e suas origens que resolveu castrar-se dos mesmos para simplesmente mergulhar em sua lógica. Não estavam completamente errados. Quando muito jovem essa senhorita presenciara fatos terríveis. A pós guerra e as migrações das massas. O desemprego gerado pelos imigrantes acabara formando uma grande massa de desempregados e futuros miseráveis. Dentre os candidatos à mendigos e frustrados estavam os tios dela. Pouco se sabe sobre os seus pais. A lembrança de sua infância era a fome e o frio. A vontade de receber algum carinho daqueles que não tinham a menor obrigação de ceder à sua vontade. A revolta da inocência roubada durante uma embriagues do tio, revoltado pela falência. Nesse ponto já não mais havia uma criança sedenta por carinho e sim uma adolescente revoltada pelo uso e pela quebra dos seus sonhos. Errante nas ruas, experimentando de tudo. Crescendo nos becos e entregando a qualquer um que poderia somar a sua existência como um verdadeiro parasita. Assim essa senhorita conheceu sua verdadeira face e despiu a primeira parte das roupas da vida. O véu da pureza caíra e dera lugar ao negro traje da vida marginal. Mas ela sempre fora inteligente e sabia que viver errante e ao extremo era apenas uma parte do propósito maior do seu ego. Desvendar o ser humano e suas arestas. Esse era o seu contexto e a sua ambição e devido às suas pesquisas, ela foi convidada a participar da maior experiência científica de sua geração. Um projeto sigiloso de propósitos ainda não revelados a todos, mas que em algum momento iria traçar o destino de uma parte da humanidade.
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