Existo

- Noto a forma como me olha, Drª Muriel. Noto o total desprezo no qual os seus olhos estão totalmente mergulhados ao analisar a minha inexistência. Sim, eu sei que sou complexo o bastante para travar sua mente, o que é perfeitamente compreensível, pelo menos para mim. Há muito me afastei do que me tornava humano, por assim dizer. Mas pensando melhor, creio que aquilo que me ligava à humanidade resolveu me abandonar. Não adianta tentar esconder o espanto, Drª, sei que não sou algo que você está acostumada a registrar em seus relatórios. Não precisa temer. Você está completamente segura, não por causa do invólucro no qual estou contido, mas por que não tenho interesse em poupá-la dessa vida patética que vocês, humanos, levam; acordando sempre na mesma faixa de horário, mantendo uma rotina doentia com a simples e única justificativa de receber uma quantia qualquer para poder pagar por aquilo de que não precisam realmente.
- Drª Muriel, sabia que nem sempre fui assim?
- Conte-me, senhor...
- Não! Não ouse a pronunciar esse nome. Ele ficou para trás no exato momento em que resolvi entrar aqui.
- Perdão, mas o senhor foi capturado.
- Você acha realmente que algo que vocês nem conseguem explicar se existe ou não, uma forma única de energia (como vocês entendem que eu seja) poderia ser capturada? Creio que não, Drª Muriel. Eu realmente poderia ter desaparecido disso que vocês chamam de existência muito facilmente e teria me aventurado pelo que vocês entendem por dimensões, mas que nada mais é que o conceito real de realidade, onde tempo, espaço, matéria, evento e probabilidades infinitas moldam as coisas que você percebe como realidade. De fato não culpo você. Eu mesmo abandonei o que vocês chamam de matéria exatamente por esse motivo.
- Como o senhor tornou-se isso?
- Interessante você me chamar assim, Drª Muriel, quando na verdade, na escala de evolução você está abaixo do mais primitivo dos insetos. Mas quais os parâmetros que se deve utilizar para definir algo ou alguém? Uma pedra poderia ser algo ou alguém dependendo apenas do seu conceito de realidade ou comunidade. Mas respondendo o seu questionamento, fui um jovem normal durante boa parte da minha vida. Estudei, me relacionei com outros de sua espécie, mas o alcance daquilo que define o que sou veio justamente quando possuía uma cadeira no curso de doutorado dessa área na qual você, muito soberbamente, sustenta uma cadeira no conselho docente. Comecei a questionar todos os princípios disso que é definido como realidade. Reformulei em minhas teorias dos princípios básicos da relação percepção x realidade. As minhas primeiras experiências que provavam que tudo o que você acredita estar puramente restrito à sua percepção foram as seguintes: Percebi que olhar para algo ou lembrar-se desse algo ativava exatamente a mesma área do cérebro. Resolvi por isso à prova. Vendei os meus olhos e constatei o seguinte após dias de tentativas: não é a lembrança do caminho entre o seu quarto e a geladeira que faz que você chegue até a mesma na ausência de iluminação. É a percepção da realidade que faz com que você não esbarre. Você poderia ser cego e ainda assim não esbarraria se acreditasse que não iria esbarrar. – nesse exato momento, a iluminação do laboratório oscila em intervalos controlados, como se alguém brincasse com o interruptor – Não se preocupe, Drª Muriel. Fiz isso somente para lhe mostrar que os seus olhos são apenas parte de uma conspiração, uma venda negra e densa na verdade.
- Andei – continuou- cada vez mais tempo com os olhos vendados ao ponto de perceber as coisas a minha volta. Nesse momento comecei a entender a realidade. Privei-me de mais um sentido: audição.
Nesse momento, a Drª Muriel começou a escutar uma suave melodia composta de acordes simples, mas que foram crescendo em sua mente e ganhando uma complexidade tal que nem mesmo todas as orquestras munidas das mais extraordinárias composições dos expoentes máximos da música poderiam igualar-se.
- Note, Drª Muriel, que não possuo um meio físico entre esse invólucro e o meio no qual você está inserida. Se o som necessita de um meio para se fazer propagar, como explica que consigo alcançar sua aparelhagem auditiva ao ponto de te fazer delirar com tal obra ainda inexistente?
- De fato, isso é muito estranho.
- Não usaria essa definição. Creio que ela não se aplique com exatidão ao fato. Desconhecido seria melhor interpretado por mim. Ao entender que a realidade se moldava e que os sentidos são na verdade um dispositivo de bloqueio da percepção, resolvi me aprofundar e ousar mais em meus experimentos.  Já não dependia dos olhos nem dos ouvidos. Ainda restavam outros três sentidos. Comecei a experimentar as lembranças dos sabores e tentar combiná-los entre si. Comia uma pêra imaginando ser uma maçã. Em algum tempo, a pêra realmente ganhava a textura de uma maçã e me agradava como uma maçã. Estava de fato funcionado. A realidade, por assim dizer, estava se dobrando à minha vontade. Nos cinco anos que se seguiram eu tentava obcecadamente aprimorar as minhas habilidades. O ápice dos meus experimentos sobre a percepção da realidade culminou nisso que você chama de algo.
- Conte-me, por favor.
- Já freqüentou uma seção espírita, Drª Muriel?
- Sim, conheço os métodos de indução.
- Exato! Esse é o termo exato. Pus-me em um transe profundo. Vi o meu corpo, vi a existência à volta, mas algo muito mais absurdo aconteceu em algum momento ou probabilidade. Diziam que era só acordar, como em um sonho, ou ter consciência de que  estava sonhado e você retornaria. Mas não procedeu dessa forma. Tentei todos os métodos de retorno ao corpo, mas todos eles foram frustrados. Eu simplesmente assisti a falência do meu corpo em um quarto de hospital. Vi os meus familiares desesperados. Vi os médicos colocando aparelhos em meu corpo. Assisti as máquinas mantendo-me vivo por três meses. Finalmente desistiram de mim. Eu mesmo já havia desistido de tentar voltar. Cheguei até mesmo a emular algo muito parecido com angústia, mas não consegui reverter a experiência. Não me restava mais nada a não ser gozar da eternidade.
- O senhor está me dizendo que é o que denominamos ser uma alma?
- Não! Não sou isso que você denomina ser uma alma. Uma alma tem um ponto de partida através de uma simples compreensão da realidade. Sou algo mais complexo. Seria uma equação muito complexa para ser explicada ou definida. Já analiso a minha forma há uma grandeza de tempo absurda para que possa ser medida.
- Desculpe-me senhor, mas o senhor nasceu há menos de cinqüenta anos.
- Meu corpo nasceu há menos de cinqüenta anos. Eu, como entidade, existo há muito mais tempo que o próprio universo, ou o que você acredita ser universo. Você não entendeu a complexidade do que consegui provar. O que você me diria se eu lhe dissesse que nesse exato momento contemplo todos os acontecimentos da grande voz criadora e toda a expansão da matéria, e da ausência dela, formando grandes campos de matéria em suspensão em um movimento caótico, girando, ganhando forma, atraindo diferentes densidades de matéria, construindo aquilo que você denomina vida? Nesse exato momento eu presencio o fim, onde tudo acaba.
- O senhor quer dizer que está no início e no fim? O senhor é Deus?
- Não, de forma alguma. Deus é algo muito mais complexo do que as instituições pregam por aí. Deus não é humano, mas o humano possui sim algo de Deus.  Retornei para ele nessa forma.
- O senhor esteve em outros planetas?
- Sim, estive.
- Existe vida neles?
- Vida é apenas uma ilusão ligada ao espaço temporal, Drª Muriel.
- Então o senhor insiste em dizer que esteve em outros planetas?
- Estive e estou em todos os pontos da existência nesse exato momento.
- Não sou capaz de acreditar como seja possível tal coisa.
- Você está interrogando um tom de azul contido entre vidros, que acredita estar falando com você e ainda assim não é capaz de crer?
Fim da parte um.
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